Olá! Eu sou Marília Mesquita e você deve me conhecer de outros textos publicados aqui no blog do Shosp. Sou médica pós-graduada em Psiquiatria e estou no segundo ano da residência em Medicina Intensiva. Hoje eu estou aqui para falar sobre um assunto muito importante: a prevenção de suicídios.

Setembro é o mês da conscientização sobre a prevenção do suicídio, uma campanha iniciada pelo IASP (International Association for Suicide Prevention).

Brasil ocupa a 113º posição no ranking global,
e a 8º na América Latina.

De acordo com o relatório de 2014 da OMS, mais de 800 mil pessoas suicidam-se por ano. O índice é de uma morte a cada 40 segundos e está entre as dez causas de óbito mais frequentes do mundo. Nos últimos 45 anos, as taxas de morte por suicídio tiveram aumento de 60% no mundo, ficando entre as três causas de morte mais frequentes em populações de 15 a 44 anos e a segunda maior causa em grupos de 10 a 24 anos. A Índia lidera o ranking global, com 258 mil casos anuais, enquanto o Brasil ocupa a 113º posição e a 8º na América Latina, com 10 mil casos registrados por ano e 32 por dia. Nas populações brasileiras, houve um crescimento de suicídio entre os jovens, idosos e uma interiorização dos casos. Os dados apontam que, em países desenvolvidos, a prática tem relação com desordens mentais provocadas especialmente por abuso de álcool e depressão. Já em países mais pobres, as principais causas são a pressão e o estresse por problemas socioeconômicos.

A Organização Mundial da Saúde define a questão como um problema de saúde pública a ser tratado de maneira delicada e incisiva, tanto por parte do Estado quanto pelos profissionais da saúde. Entre suas recomendações estão a restrição de acesso aos meios mais utilizados para suicídio, como armas de fogo, pesticidas e medicamento; a redução do estigma em torno do assunto através da conscientização do público e a capacitação de profissionais de saúde, educadores e forças de segurança. Inclusive, a OMS criou e distribuiu um guia de prevenção ao suicídio para auxiliar no tratamento e prevenção de pacientes de risco .


Prevenção

O Plano de Ação de Saúde Mental da OMS estipula que os índices de suicídio sejam reduzidos em 10% até 2020. A agência da ONU estima também que 90% dos casos de suicídio podem ser evitados com a adoção de uma abordagem multisetorial abrangente. Na tentativa de evitar mais casos, o Ministério da Saúde propôs, em 2005, a Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio, a qual cria grupos de trabalho, diretrizes nacionais, seminários e a utilização do Manual de Prevenção de Suicídio para Profissionais de Saúde Mental, lançado em 2006.

Entre as ações da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), um manual de imprensa esclarece jornalistas sobre termos específicos e traz um panorama com dados e informações gerais que permitem uma compreensão mais adequada da saúde mental; e uma outra publicação, o livreto Comportamento suicida: conhecer para prevenir, orienta profissionais da imprensa sobre como abordar o tema, preservando o direito à informação e contribuindo para a prevenção.

Pessoas com pensamentos suicidas procuram ajuda cerca de seis meses antes de consumar o ato e este primeiro contato é essencial na prevenção.

O PesqueSui realiza estudos sobre suicídio e ideação suicida, o uso de emergências psiquiátricas pela população e métodos de educação em massa sobre saúde mental. Em 2012, o grupo lançou o livro Trocando seis por meia dúzia – Suicídio como emergência do Rio de Janeiro, organizado pelo pesquisador Carlos Estellita-Lins. A obra relata o atendimento, nas emergências dos hospitais da cidade, a pacientes que tentaram se matar. Entre as principais dificuldades apontadas no texto estão a precariedade na formação em urgências psiquiátricas e em suicidologia. Os dados apontam que pessoas com pensamentos suicidas procuram ajuda cerca de seis meses antes de consumar o ato e este primeiro contato é essencial na prevenção.

Além do PesqueSui, na Fiocruz, outras iniciativas desenvolvem trabalhos e projetos estratégicos em saúde mental para capacitar profissionais da saúde, qualificar o campo de pesquisa e fortalecer políticas públicas de saúde, de direitos e do cuidado integral em saúde mental e de campos relacionados. Dentre estes podemos citar o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental (Laps), vinculado à Escola Nacional de Saúde Pública e o Grupo de Trabalho em Saúde Mental, que fica na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), dentro do Laboratório de Educação Profissional em Atenção à Saúde (Laborat)


Suicídio no audiovisual

Além destas ações, a Fundação também aposta em meios de ampliar o acesso à informação. A pedido do PesqueSui, o historiador e documentarista Eduardo Thielen, da VideoSaúde, foi convidado a transpor os debates sobre saúde mental para a linguagem audiovisual. O resultado foi o documentário Suicídio no Brasil. O filme aborda o tema a partir de entrevistas com pedestres na Praça XV, no Centro do Rio de Janeiro, fazendo um contraponto entre a perspectiva do senso comum e dos grupos de risco.

Já o longa metragem Elena, lançado em 2012, conquistou a crítica especializada com sua abordagem delicada do assunto. A diretora Petra Costa retratou o episódio familiar sobre amor e perda: o suicídio de sua irmã mais velha, Elena, na Nova York de 1990. Além de apresentar a trajetória da falecida atriz, o objetivo do documentário é mostrar que é possível tirar algo positivo da ausência.  

A Ponte retrata o cotidiano da Golden Gate Bridge que corta a baía de São Francisco. O ponto turístico norte-americano é o local com o maior índice de suicídios do mundo. O documentário de 2004 flagrou mais de 20 pessoas subindo no parapeito da ponte e se atirando. Além de filmar o ato o diretor Nate Parker coletou o depoimento de familiares e amigos dos suicidas para tentar entender os motivos por trás da atitude.

O documentário de 2004 flagrou mais de 20 pessoas subindo no parapeito da ponte e se atirando.

O filme Controlnarra a trajetória do vocalista da banda Joy Division, Ian Curtis. O músico se enforcou aos 23 anos em meio às conturbações da carreira, da vida amorosa e de problemas com a epilepsia.

A animação francesa, dirigida por Patrice Leconte, A Pequena Loja de Suicidas aborda o suicídio e a depressão de maneira lúdica. Em um mundo cinzento, imerso em depressão e desesperança, a família Tuvache prospera com um negócio único: uma loja de suicídios que oferece aos clientes opções requintadas e confortáveis. Entretanto, o empreendimento familiar enfrenta problemas quando o filho caçula, sorridente e cheio de pensamentos positivos, decide mudar essa realidade.


Setembro Amarelo

O Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma entidade sem fins lucrativos que oferece apoio emocional gratuito para pessoas que estejam passando por momentos difíceis, com sigilo total, em todo o país há 54 anos. Suas ações são coordenadas com a Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio, a Associação Internacional para Prevenção do Suicídio e outros órgãos que agem em prol da mesma causa. Em 2014, em conjunto com o Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria, foi criado o Setembro Amarelo. A campanha começou em Brasília e, em 2015, ganhou alcance nacional. Seu objetivo é alertar e conscientizar a população sobre o suicídio através de seminários, palestras, jornadas científicas e artísticas, monumentos iluminados de amarelo em várias cidades e outras ações que pretendem despertar no público o senso de urgência em relação ao assunto.

Entre os destaques do ano passado estavam a iluminação de monumentos como o Cristo Redentor no Rio de Janeiro; o Congresso Nacional e a Ponte Juscelino Kubitschek em Brasília; o Estádio Beira Rio em Porto Alegre; a Catedral e o Paço Municipal de Fortaleza; a Ponte Anita Garibaldi em Laguna e o Palácio Campos das Princesas em Recife.

Este ano, o Cristo Redentor no Rio de Janeiro e o Elevador Lacerda em Salvador foram iluminados; as “Gordinhas de Ondina”, esculturas da artista Eliana Kertész, foram vestidas de amarelo e os jogadores de futebol dos times Flamengo e Vitória entraram em campo pelo campeonato brasileiro com munhequeiras amarelas.


Canais de atendimento

Não é raro perceber que um amigo ou familiar está apresentando sinais que levam ao suicídio ou à automutilação, mas nem sempre sabemos como agir. Pensando nisso, o Facebook passou a oferecer, desde junho deste ano, uma ferramenta para ajudar a prevenir o suicídio e a automutilação. O objetivo é ajudar tanto quem pensa no suicídio, quanto os amigos e familiares de pessoas nesta situação. A iniciativa é uma parceria da rede social com o Centro de Valorização da Vida.

Ao identificar posts de amigos, familiares ou conhecidos com ideias suicidas ou de autoflagelação, os usuários poderão denunciar o conteúdo em sigilo. As publicações são analisadas com máxima prioridade pela equipe de revisão da rede social e as mensagens de apoio chegam o mais rápido possível. O autor do post receberá, então, uma notificação questionando o seu estado emocional, com dicas elaboradas por especialistas e indicação de canais de atendimento do CVV.

Além da ferramenta de denúncia, o Facebook possui informações que podem ser acessadas a qualquer momento em sua Central de Ajuda. No CVV, mais de 2.000 voluntários fazem o atendimento em 18 estados mais o Distrito Federal nos 72 postos de atendimento, pelo telefone 141, pelo site, via chat, VoIP e e-mail. Além disso, o serviço possui uma cartilha para esclarecer as principais dúvidas sobre o ato e suas consequências.


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